domingo, 16 de setembro de 2012

PORTUGAL: A MULHER QUE LEVA DO MARIDO E CANTA O FADO



Costumo comparar Portugal a uma mulher que leva porrada do marido mas prefere estar com ele porque pelo menos ele dá-lhe pão e tecto. Ela faz-lhe o jantar e ele dá-lhe segurança. Essa mulher sempre se queixou a toda a gente que ele não lhe dá valor, que a deita a baixo e que só a quer sugar até ela não ter mais nada para dar, e toda a sua beleza, amor e poesia se tiver esgotado. E por isso, canta o fado. Canta o fado porque nada mais pode fazer, é o destino, pensa ela. Falta-lhe força, coragem de olhá-lo de frente e dizer: “Chega!  Prefiro estar só, debaixo da  ponte, do que contigo, meu falso amigo”.

 Pois ontem, 15 de Setembro, pareceu-me que essa mulher  se ergueu e sem desespero, sem medo, saiu para a rua. Na manifestação no Porto, ouvi gritos de revolta mas não vi desespero. Senti que as pessoas estavam de cara levantada a dizer “chega” e “fora daqui”. Algumas estavam lá por razões muito específicas, pessoais, porque estão a ficar com menos dinheiro no final do mês, mas outras manifestavam-se porque perceberam que tudo o que se está a passar vai muito para além do dinheiro. É um povo inteiro que se está a tentar vergar de novo perante a autoridade, a dominar pelo medo, a obrigar a ser mendigo. Aliás, Portugal é só o início. O plano continuará. Mas só se nós deixarmos.
Qual é o nosso potencial como povo e qual o potencial deste lugar à beira mar?
Será que essa mulher sabe o que significa deixar de ter a protecção do seu grande opressor? Será que os portugueses sabem que não podem ter a liberdade que sonham enquanto forem um povo que não se ama a si próprio e que se ilude com os presentes envenenados que o materialismo/capitalismo lhes oferece?

É que o F.M.I. é só a ponta do iceberg.  Não seria melhor ficarmos sós e independentes e semearmos o nosso pão? E o que significa isso? Pelo menos, garantidamente, significa que as pessoas terão que abdicar do estilo de vida que as trouxe até aqui, e ter uma vida mais simples. É que agora que nos chegou aos bolsos, queremos fazer algo, mas este sistema que vemos a dominar o mundo é o sistema da injustiça, da exploração, e para que uns tenham um LCD e um iphone outros são explorados nas minas de África do Sul e mortos apenas por se manifestarem como ontem nós aqui fizemos livremente. O problema é mundial e não pode ser resolvido por partes. Não podemos continuar a ter o estilo de vida que tivemos até aqui e querer ser independentes e não pagar as dívidas. Talvez tenhamos todos que ter vidas mais simples, mas ao mesmo tempo mais livres e ter tempo para educar os nossos filhos, para que não sejam programados na escola para serem operários de 1ª classe ou de classe económica.

 Estaremos nós à altura do desafio? Seremos capazes de escolher entre a ditadura disfarçada de democracia, que rouba a uns para dar a outros, que aterroriza e oprime povos em locais distantes para os salvar dos seus ditadores assumidos, mas que também nos dá bons carros e casas, conforto, viagens e muita comida (de lixo), e a liberdade e a independência  de estarmos sós, mas abertos ao mundo, à cooperação entre pessoas e a uma vida com menos necessidades?

É a escolha que temos de fazer. Não podemos ter tudo. Este sistema trouxe-nos o conforto e a segurança, mas deu miséria a muitos povos até hoje. Para além do rasto de destruição na Terra que continua a deixar.  Agora chegou a Portugal. Mas há muito tempo que isto acontece. Desde o início.

Ivone Apolinário

Sem comentários: