segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Educação e Escola

Uma mãe pode sentir-se responsável pelo filho, sentir que ele faz parte do seu sangue e da sua carne, e consagrar portanto todo o cuidado e atenção a essa criança durante alguns anos. Este instinto maternal será responsabilidade? Talvez esta ligação especial aos filhos tenha sido herdada do primeiro animal. Existe na natureza, desde o mais frágil passarinho ao elefante majestoso. Perguntamos então - será este instinto responsabilidade? Se o fosse, os pais sentir-se-iam responsáveis por uma educação correcta e por um tipo de sociedade totalmente diferente. Fariam o possível para que não houvesse guerras, e para que neles próprios florescesse a bondade.

Somos responsáveis por toda a humanidade - que é cada um de vós e cada aluno. Tendes de começar por aí e abranger a terra inteira. Podeis ir muito longe, se partis de muito perto. (...)A natureza não é imaginária: é real, como é real o que vos está a acontecer. É pelo real que tendes de começar - pelo que está a acontecer agora - e o agora é sem tempo.

J. Krishnamurti, in Cartas às Escolas


E as nossas escolas? Para quê?Conheço um mundo de artifícios de psicologia e de didática para tomar a aprendizagem mais eficiente. Aprendizagem mais eficiente: mais sucesso na transformação do corpo infantil brincante no corpo adulto produtor. Mas para saber se vale a pena seria necessário que comparássemos os risos das crianças com os risos dos adultos, e comparássemos o sono das crianças com o sono dos adultos. Diz a psicanálise que o projeto inconsciente do ego, o impulso que vai empurrando a gente pela vida afora, essa infelicidade e insatisfação indefinível que nos faz lutar para ver se, depois, num momento do futuro, a gente volta a rir... sim, diz a psicanálise que este projeto inconsciente é a recuperação de uma experiência infantil de prazer. Redescobrir a vida como brinquedo. Já pensaram no que isso implicaria? É difícil. Afinal de contas as escolas são instituições dedicadas à destruição das crianças. Algumas, de forma brutal. Outras, de forma delicada.

Crónica de Rubem Alves



3 comentários:

Paula disse...

Gosto muito de Krishnamurti!

Meninheira disse...

Muito bós estes fragmentos! :)

Mário Relvas disse...

Interessante. Eu e a minha "bicicleta" teremos que cuidar do nosso filhote até ao fim das nossas vidas.
Coisas da vida. Haja amor e saúde.
Gostei de ver o seu perfil e da comida e atitude natural.

Saudações e um sorriso